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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Análise do CD "Confiarei", de Thiago Rodrigo Banda

Juntos há quase dois anos, os integrantes da Thiago Rodrigo Banda foram rápidos em apresentar ao público a primeira produção musical do grupo. Isso porque Thiago Rodrigo, vocalista e líder da banda, já estava com um projeto na gaveta. Era só questão de amadurecer a ideia e esperar o momento certo. O encontro de Thiago com Daniel (teclado) e Jefté (bateria) pelos corredores da Assembléia de Deus em Joinville deu o start para que o projeto saísse do papel, ganhasse fôlego e fosse de fato concretizado. Com algumas músicas sendo cantadas nos cultos da igreja, em eventos pela cidade e também bastante executadas na rádio 107,5 FM, naturalmente surgiu uma boa expectativa a respeito do primeiro CD da banda. O álbum viria em junho, inaugurando oficialmente a trajetória do trio.

Confiarei” soma dez canções, a maioria com letras de Thiago Rodrigo, e apresenta temáticas evangelísticas, mensagens de edificação e até uma balada romântica. O álbum tem produção e participação instrumental do reconhecido guitarrista Marcelo Vieira e se identifica por compor um recorte musical que atravessa diversas nuances do rock e do pop, revelando algumas influências técnicas dos integrantes, como Third Day, U2 e Coldplay.
A faixa de abertura do CD é “Quero Mergulhar”. Apesar da estrutura simples, a música tem um levada pop gostosa de ouvir e uma letra que “pega” fácil. A batida bem marcada da bateria e algumas quebras do ritmo no tempo certo dão motivos para seguir em frente e “mergulhar” nas outras faixas.

Te Amo” tem na letra uma abordagem muito semelhante à primeira música, parecendo até continuação, mas o que chama atenção aqui é que a faixa começa pelo refrão, coisa não muito comum em gravações mas hábito corriqueiro nas ministrações de louvor nas igrejas e em eventos. Isso é reflexo da experiência dos integrantes adquirida junto aos grupos de louvor dentro da igreja, ambiente com certa informalidade e contato direto com o público. E a canção é mesmo ideal para ser cantada ao vivo, pelo ritmo vibrante e convidativo que possui. O álbum poderia ter iniciado com ela.

A música seguinte é a faixa-título “Confiarei”. Tem uma letra bem colocada, num tom marcadamente evangelístico, e uma condução envolvente, embora isso seja comum nas músicas cristãs contemporâneas. Ela poderia manter com confiança a responsabilidade de ser uma das músicas de trabalho da banda, mas peca num detalhe incômodo: a introdução é praticamente igual à música “Pela Fé”, do cantor André Valadão. Intencional ou acidental, o fato é que essa referência acaba comprometendo a faixa inteira, justo naquela em que a força vocal de Thiago é bem evidente. Uma pena (ou algo bom, para quem curte muito André Valadão).

O deslize da terceira faixa provoca certa desconfiança e deixa o ouvinte de sobreaviso. Mas “Sou Tua Noiva” – quarta música – não deixa a peteca cair. Com letra do produtor Marcelo Vieira, a faixa faz o som dos teclados escorregar pelos ouvidos e causa boa sensação. Leve e redonda, sem tropeços, é uma canção para todo mundo gostar.

A quinta faixa vem no ritmo da anterior e traz uma harmonia bacana entre os instrumentos e a voz. “Igual A Ti” é bem preenchida, tem letra curta mas bastante reflexiva, e dá para ouvir várias vezes seguidas sem cansar. Isso é um aspecto místico da música em geral e depende muito de quem ouve. Não deixa, no entanto, de ser um ponto positivo, já que muitas canções são enjoativas logo de início.

Se o álbum tem uma faixa dispensável, essa é a sexta: “Vou Lutar”. Não vale a pena lutar por ela. Não que a música seja ruim em si, mas ela não provoca nenhum espanto nem nenhuma admiração e, além do mais, ainda faz lembrar (de novo) do repertório pouco criativo de André Valadão. O clima cinzento e seco da música a deixa muito fraca e, por isso mesmo, não consegue atender a expectativa do ouvinte.

Eu Quero Ir”, a faixa número 7, está no mesmo nível que a 5, ou até um pouco além. Tem um ritmo bem equilibrado, com subidas e descidas, e um refrão fácil de pegar que incentiva a cantar junto. A composição, de autoria do Grupo Judá, nome conhecido no circuito das igrejas da cidade, é responsável por dar uma “virada” no aspecto das músicas até então apresentadas. Isso porque as músicas seguintes têm uma identidade muito própria, destoando das demais e personalizando o trabalho de produção da banda. O melhor do CD parece ter ficado na parte final...

A baladinha romântica aparece na oitava faixa. “Te Conheci” é bem conduzida, bem tocada e bem apresentada, e segue num ritmo que só deve desagradar quem tem gostos muitos exóticos. Cantada como uma declaração de amor, a letra está bem escrita e, embora sem grandes pretensões, consegue fugir de algo muito convencional. É o tipo de música que cumpre com competência seu objetivo. E ainda traz uma graça a mais.

A penúltima música é forte candidata ao posto de melhor faixa do álbum. A mensagem de “Até Quando” apela àqueles que estão longe de Deus, é um convite à restauração do relacionamento com Deus. A letra de uma inspiração emocionante e o ritmo num balanço bem cadenciado forma um fio que conduz melodia e mensagem num encaixe perfeito. A música é lenta, porque precisa ser, e reflexiva, porque também precisa ser. O propósito específico da canção reclama para si um tom intimista, sensível e pessoal que consegue ser alcançado. Se bobear, ela te faz chorar. Mesmo!

A música bônus “O Teu Amor” é a faixa que encerra o álbum. E encerra muito bem, com um reggaezinho de levantar poeira, acompanhado de uma letra descontraída e bem humorada (mas nem por isso menos engajada espiritualmente). Ótima para se ouvir numa sexta-feira de sol.

No geral, as muitas referências que se cruzam em “Confiarei” despersonaliza o caráter autoral do trabalho da banda, percebida apenas em algumas canções. Alguns trechos lembram características presentes em Filhos do Homem, Third Day ou Heloísa Rosa, que são elogiáveis, e outros, de aspectos não tão elogiáveis assim, remetem a certas produções já bastante massificadas e exploradas. A expectativa que fica é que, a partir do encontro de estilos e referências (boas ou ruins) marcados nesse álbum, Thiago Rodrigo Banda encontre o próprio caminho e, com as condições necessárias, prossiga com esse projeto que tem em “Confiarei” não apenas um passo, mas já uma pequena caminhada. Vale o voto de confiança.

CONFIAREI
Ficha Técnica:
Produção Executiva: Thiago Rodrigo
Produção Musical: Marcelo Vieira
Vocal: Thiago Rodrigo
Bateria: Jefté Caetano
Teclados: Daniel Valter (Japa)
Guitarra: Marcelo Vieira
Baixo: Israel Vieira
Gravação: Área Estúdio (Joinville – SC)
Fotografia: Arlei Schmitz e Michel Ribeiro
Projeto Gráfico: MCR Design

Leia aqui no Amplificador um breve perfil do grupo e acompanhe pelo site oficial as atividades da banda.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Análise do CD "Um Dia Bem Melhor", de Dayana Trindade

Um Dia Bem Melhor” é o álbum de estreia da cantora joinvilense Dayana Trindade. Lançado em 2008, o trabalho reúne dez canções de autoria própria que marcam uma conotação "emepebista" nos arranjos e melodias. No time de Dayana figuram nomes de referência como Marcelo Vieira (violão e guitarra) e Gilberto Machado – o “Formiga” – (baixo), emprestando credibilidade no instrumental e somando responsabilidade à voz da cantora. As letras das composições não têm compromisso com o rótulo comum da música “gospel” e certamente não cabem no repertório fácil dos cultos dominicais, pois não se apóiam em repetições infindáveis ou frases feitas. O CD encarna certo tom intimista, às vezes reflexivo, bom para se ouvir em casa, com tempo, disposição e espírito desarmado. Extraída das experiências cotidianas, aquelas comuns a todos, e não restritas apenas aos evangélicos, a mensagem deste trabalho tem no Evangelho sua fonte, mas com a pretensão de desaguar além dele, especialmente para os que não o conhecem.

O álbum começa com a faixa título “Um Dia Bem Melhor”. E na verdade só poderia começar com essa ou com a quinta faixa – “Daqui Pra Sempre”. Nenhuma outra tem condições de segurar o peso de “abrir” o CD. A letra da música apóia-se na mensagem clássica do Salmo 30:5 – “Pode o choro durar uma noite, mas a alegria vem ao amanhecer”. A mensagem ganha estilo nos acordes do teclado conduzindo a canção num ritmo de reflexão. O desenho da música é bem retilíneo e tem maior vivacidade apenas na segunda parte. Isso deve desagradar os mais ansiosos por quebras e curvas, mas cai bem para quem gosta de privilegiar a letra.

A segunda faixa – “Lugar” – bem que poderia se evaporar do álbum e ir para outro lugar. É ruim de ouvir. É down. Felizmente ela não é a canção que introduz o disco, o que poderia comprometer uma boa primeira impressão. A letra é de relevância, mas o som não empolga, a música é desnecessariamente longa e serviria, talvez, como fundo nos créditos finais de um filme europeu. Faz-se justiça, no entanto, quanto a parte técnica: “Lugar” foi semifinalista no 2º Festival da Música e Integração Catarinense (Femic), em 2008. Isso serve para confirmar que a opinião técnica da crítica geralmente não coincide com a do público. Enquanto o ouvinte médio vê a música como linguagem e sentimento, o jurado de festival a vê como matemática. E números, como se sabe, não choram, não riem, não sentem.

Deus do Impossível” vem para recuperar o “tropeço” da faixa anterior, o que não é tarefa muito difícil. Tem uma mensagem mais congregacional, de temática recorrente e, por isso, sua beleza é amparada pela melodia. É agradável de ouvir. Um ponto negativo dessa faixa está no título: “Deus do Impossível” já nomeia músicas de Alda Célia, de Regis Danese, do ministério Trazendo A Arca e de outros cantores. É o tipo de coisa que faz com que a música já nasça com a identidade comprometida. Pode até ser excesso de preciosismo, mas a referência incômoda poderia ser facilmente contornada.

Em “Eu Quero Mais de Ti” – quarta música – a batida da bateria ganha evidência. A voz de Dayana também tem presença mais forte do que nas canções anteriores. A música ficou preenchida, envolvente e encorpada, com uma vibração que a torna singular. É uma canção que revela o potencial vocal da cantora e a competência do instrumental.

Na quinta faixa está a melhor canção do álbum. “Daqui Pra Sempre” é música para se ouvir diversas vezes seguidas e se arriscar a cantar junto o refrão. Tem uma letra de fácil assimilação e uma mensagem importante sobre a confiança em Deus. O tema de “Daqui Pra Sempre” sugere ser cantado depois de se passar por um momento difícil e ter alcançado êxito, superação e resposta. As experiências com as tribulações geram maturidade espiritual e a esperança de que “nem altura, nem profundidade, nem angústia ou setas da maldade nos impedirão de cantar”. Letra e música formam aqui um conjunto que incentiva a tocar o barco da vida, do mesmo modo que a própria canção é bem conduzida.

A música seguinte – “Em Tua Presença” – tem a mesma nuance de “Deus do Impossível”, apenas a letra parece continuar a mensagem da faixa anterior. Ela inicia uma sequência de canções que apresenta um tom mais característico de música de adoração. Isso não significa que o ritmo deva ficar cadenciado como ficou nessa faixa. Ela teria mais visibilidade se ganhasse também mais aceleração.

Seguindo a linha, “Coração de Adorador” mostra-se uma boa canção. Letra bem construída e melodia que se encaixa perfeitamente numa proposta despretensiosa. Mas o que rouba a cena nessa música é o saxofone do jazzista jaraguaense de reconhecido talento Jefferson Lescowich. Com participação especial no trabalho de Dayana, ele poderia ter sido melhor “explorado” (no bom sentido do termo).

Para fechar a trindade de adoração, “Vem Que É Bom” dá um update no clima e faz uma quebra necessária. É a única música do CD que tem o “espírito” de “música de igreja”, recomendável para abrir o culto de domingo. A letra, convidativa ao louvor, foi feita em parceria com Adilson do Nascimento. Ele fez a direção vocal do álbum e também co-assina a autoria de “Deus do Impossível”. As duas composições têm um ponto em comum: são voltadas para o público interno das igrejas. O que as diferencia é que a terceira faixa é mais reflexiva, enquanto “Vem Que É Bom” é mais descontraída.

A penúltima faixa explora o campo dos relacionamentos. “Quero Alguém”, como sugere o próprio nome, é uma espécie de oração em busca do amor ideal. A intenção não é nada fora de propósito, afinal, essa busca é empreendida por todos, cristãos ou não-cristãos. O que deixou a desejar foi a letra, imersa num tom piegas, embora sustentada por uma balada bem feita.

Para fechar o álbum, “Perfeito Amor”, de letra em parceria com Cláudio Ribeiro, foi uma boa escolha. A música também trata de relacionamento, mas desta vez é pertinente ao amor de Deus. Mais do que uma busca ou pedido, trata-se de um elogio, uma devoção, uma confissão de dependência. A canção peca, porém, no mesmo deslize de “Deus do Impossível” no que diz respeito ao título: “Perfeito Amor” é nome recorrente de músicas de outros artistas e remete com facilidade à faixa homônima do Oficina G3, ainda mais que, em alguns momentos, a melodia é de fato parecida. Embora seja um elemento exterior, ligado à memória do ouvinte, a recorrência tira o brilho de luz própria que a música tem em si e, ainda mais, a força de sua boa execução.

Ao largo desse dano, a última faixa encerra com competência um CD que, de modo geral, é também competente. Faltou ao álbum, se podemos exigir muito de um trabalho de estreia, uma pretensão à altura da conceituação do grupo que se reuniu para fazê-lo. Da voz de Dayana fica a sensação de que ela não usou toda a potência que tem, talvez por uma reverência ou maior valorização ao instrumental do disco. Em todo caso, o trabalho tem uma marca autoral definida, resultado de escolhas criteriosas e, sem dúvida, de dedicação, esforço e profissionalismo. Tudo isso nos faz acreditar que não devemos perder essa menina de vista, mesmo que ela já esteja morando em Curitiba (PR).

Antes de fechar essa análise e, diga-se de passagem, mais um conjunto de impressões de ouvinte atento do que um release técnico, um ode à arte do CD de Dayana Trindade. Belas fotos, imagens atraentes, boa composição. A qualidade do design está replicada também no site oficial: completo, relevante, bonito, atualizado.

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