terça-feira, 14 de abril de 2009

Se eu tivesse duas mãos fazendo a mesma coisa

Duas Mãos ("Two Hands" - Jars of Clay)

Tradução livre

Tenho vivido fora do equilíbrio
Tenho dividido os cabelos e embaraçado fios
Eu sou uma casa que está dividida
No meu coração e na minha mente

Eu uso uma mão para puxar para perto
E outra para empurrar você para longe
Se eu tivesse duas mãos fazendo a mesma coisa
Erguia para o alto, erguia para o alto

Tenho uma disposição fragilizada
Eu sou um mentiroso que tem sede de verdade
E embora eu anseie pela fé para me sustentar
Eu preciso sentir as cicatrizes e ver a prova

Eu uso uma mão para puxar para perto
E outra para empurrar você para longe
Se eu tivesse duas mãos fazendo a mesma coisa
Erguia para o alto, erguia para o alto

E se nós continuarmos escavando podemos alcançar a fundação
De nossas almas
E se nós continuarmos cortando todas as cadeias de nossos corações
Nós vamos perder o controle

E isso é como entregar
É como começar de novo
É como acordar, e você saber que está chegando
Como sinal de um novo dia
Abra os olhos

Se eu tivesse duas mãos fazendo a mesma coisa
Erguia para o alto, erguia para o alto

::
Somos metade. Hemisfério. Parte descompleta de um todo impossível. Somos divisão, conflito, muro, limite, abismo. Somos potência de inteireza, de completude, de perfeição. Mas também de ruína, de cinza, de despojo. Somos força e fraqueza. Queda e subida. Uma parte e outra parte. Um tanto e outro tanto. Um querer e um desquerer. Assim somos: pessoas fracionárias, fragmentos de gente, pedaços de harmonia e desordem. Casa dividida, cidade sitiada, campo minado. Somos moradas de guerra e paz. Lutamos todos os dias contra todos, contra nós mesmos. O olho esquerdo vigia o direito. O pé direito faz armadilhas ao esquerdo. O coração se desentende com o cérebro. A mão destra sai aos tapas com a canhota. A boca nem sempre diz o que o pensamento quer expressar. Assim somos: dízima periódica.

Somos confronto, mistério e espanto. “Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão” já dizia, e dizia bem, Ferreira Gullar. Antes ainda, Paulo aos romanos ponderava: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço”. Ser ou não ser, fazer ou não fazer, estar ou não estar: eis as questões. Desde o Éden até agora. Desde o porão do mundo até o telhado de amanhã. Somos contrários e confusos. Somos frágeis: bolha, espuma, seda, faísca e retina. Somos fortes: rocha, leopardo, martelo, fogo e espada. A mão que afaga também afoga. Fere, falseia, fraqueja. Espalha, estraga, explica.

Somos dois. Um medo e uma coragem. Um amor e um ódio. Somos duas. Uma noite e uma manhã. Uma fé e uma desconfiança. Num dia acordamos Caim e dormimos Abel. No outro, somos o contrário. Somos contrários. Contrariamos quem nos é igual e defendemos quem nos é diferente. Somos diferenças. Somos igualdades. Somos e não somos. Somos dúvida, talvez, indecisão. Somos enigma, certeza, revelação.

Somos tudo isso. E vi tudo isso nessa condição: “E se eu tivesse duas mãos fazendo a mesma coisa”. “If I had two hands doing the same thing”, verso de “Two Hands” no novíssimo trabalho de Jars of Clay, “The Long Fall Back To Earth”, carrega o grande peso da temática do álbum: relacionamento. O homem com Deus, o homem com o outro, o homem com ele mesmo. Um problema desde a “fundação de nossas almas”. Na imagem da mão que puxa e da mão que empurra há a tradução do enigma humano, de seu permanente estado de insatisfação, de indefinição. Não se trata de revelar um segredo ou decifrar uma senha, mas de pensar uma lógica, de entender possibilidades. Da compreensão de que somos obra em construção, caminho feito ao caminhar. Começo e recomeço, forma e reforma, matéria em transformação.

Vivemos. E viver é ser casa repartida. Quartos escuros e salas arejadas. Varanda limpa e depósito entulhado. A morte é senhora de uma coisa só: casa suja ou bem arrumada. Ela não vive de equilibrismos. Nós, os divididos, vivemos na tentativa equilibrista. Caímos e levantamos. Erguemos e derrubamos. Todos os dias estamos por um fio, na linha-fronteira da outra metade de nós. E é bom que sejamos metade. Buscaremos em Deus e nos outros o preenchimento necessário, o estoque suplementar de sentido da existência. Se as mãos sempre se entendessem, seríamos fracos ou fortes, tristes ou alegres, feitos de absoluta certeza ou de absoluta indecisão. Mas as mãos não fazem a mesma coisa. Somos mistura: uma coisa e outra ao mesmo tempo. Estamos sempre tão certos como sempre tão errados. Somos pessoas exatas feitas de inexatidão. Ser uma coisa só é perigoso.

As mãos brigam. A vida ocorre no puxa-empurra dos dias, das mãos, das experiências. Se eu tivesse duas mãos fazendo a mesma coisa, elas estariam levantadas para o alto. À Deus, em gratidão. De resto, só quando estiverem entrelaçadas sobre o peito. À morte, em rendição. Por enquanto, há lutas, guerras e combates. E vai morrendo aos poucos o homem de metades que somos. Até ser dia perfeito. Quando não precisaremos mais das mãos, nem dos pés, nem do corpo. Nem de números, de nomes ou de notícias.

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