terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A cara à tapa. Na capa.

A capa grita liberdade. Pede explosão, fogo, tempestade. A capa quer te queimar, te pegar pela garganta, te deixar pasmo, sem fôlego, tem comer pelos olhos, te pegar pelas mãos. A capa é uma mulher seduzindo com roupas vermelhas. Quer cuidado, pede atenção e carinho. Quer teu beijo de amante, teu abraço de amigo, teu toque de admirador. A capa não se esconde, mostra-se escancarada, de salto alto. Está ali como um portal, uma passagem para o tesouro, um elo para seu canto interior, um convite para sua alma musical. Mais do que ser vista, a capa deseja o elogio, quer ser lembrada nos sonhos, comentada no papo de bar, citada em listas de artes, sair nas colunas sociais. A capa quer as capas dos jornais, os holofotes da TV, as fotos gigantes das revistas. A capa é senhora decidida. Ordena tua presença, abre a porta. Fala firme: entre e descubra-me. Viaje em mim.

A capa é uma dama. Elegante. Merece ser bem tratada. Mas há os brutos. E os brutos não amam. Eles maculam de mau gosto a veste branca da capa. Picham com breguice sertaneja um espaço privilegiado da obra, como se a capa fosse muro de subúrbio, que aceita os palavrões das gangues e a urina dos cães. Não adianta poses manjadas nem rostinhos angelicais photoshopados. Não adianta sorrisos artificiais e letreiros coloridos. Não adianta trejeitos de bom menino nem truques infantis de quem finge não gostar de aparecer. Não adianta esconder o narcisismo. Ele está na cara. Na capa. Não adianta a maquiagem. Não adianta: é brutalidade colocar foto do artista na frente do CD. É um estupro à dama da capa, a violação de um espaço que poderia ser dedicado à arte, à imaginação, ao delírio da liberdade criativa. Em tempos das vitrines virtuais, é inaceitável sacrificar o corpo da capa em favor da pieguice egoísta do autor. Ele que compre um porta-retrato e guarde para si mesmo.

Ao invés de atrair, repulsa. A cafonice dos brutos transforma a elegância da capa em dama vagabunda. Em outra palavra: prostituta. De galeria de arte à zona de baixo meretrício, eis na capa um lugar mal cheiroso e poluído, infectado por riscos, rabiscos e extravagâncias visuais feitas em linhas de produção. Se a originalidade da música seguir a “arte” da capa, então, o preço do prazer pode ser caro demais. Melhor passar de largo e evitar a agressão aos olhos e aos ouvidos. A fuga, no entanto, às vezes, é impossível. Até os bons artistas caem na sedução fácil das capas vulgares. E lá vai a banda posar ao estilo bad boy num ferro velho abandonado. E lá vai a cantora erguendo as mãos numa praia deserta, com o entardecer de uma tarde quente ao fundo. E lá vai o compositor fazendo graça com seu violão pouco usado numa foto estúpida de estúdio. E lá vai a dama gritar seu grito de protesto: foi traída mais uma vez. Valerá a mediocridade da ostra só se a pérola for de inestimável valor.

Alguém dirá que uma capa sedutora e impressionante também pode ser enganosa quanto ao conteúdo. Certamente. A capa é um ente feminino e, como tal, pode estar somente jogando com os sentidos dos observadores. Mas ela não pode ser enganosa quanto a si mesma. Arte é arte em si e não depende de ninguém. Nem de você, nem de mim. Qualquer coisa, jogue o CD fora, coloque a capa num quadro. E eis uma bela decoração para a sala de estar. Eis tua monalisa dos encartes. Eis tua dama virtuosa em meio às mulheres da vida. Celebre, não é sempre.

Dar a cara à capa é mais fácil do que dar a cara à tapa. É o caminho largo. E o fim, sabemos: é a perdição. Poucos se arriscam no estreito. Os brutos torcem os beiços. Eles também sabem. Mas alguém há de, ao menos por uma noite, não deixar uma dama chorar à porta. Alguém há de ouvir seu canto de sereia, seu convite ao mar profundo. Alguém há de querer ouvir a música mesmo antes do CD tocar. A primeira faixa está na capa.

Capas: da cafonice escancarada de uns à elegância criativa de outros

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