quarta-feira, 26 de maio de 2010

Como se ouve música hoje


É difícil não se sentir desnorteado com música hoje em dia. A quantidade e possibilidades de acesso são tão exorbitantes que nunca se dá conta de conhecer, muito menos escutar, tudo que se queria. É verdade que a miniatuarização constante da tecnologia e a capacidade de levar a última novidade na palma da mão, plugada nos ouvidos, já amenizariam essa demanda, mas o que chama atenção atualmente é a convergência das diferentes mídias para um mesmo lugar, vide o frisson que o lançamento do iPad causou ao redor do mundo – livros, vídeos e canções, conectados à web, em um aparelho com pouco mais de um centímetro de espessura. Mas o que isso acrescenta à atividade de se ouvir música?

Pouca coisa, na verdade, já que apenas confirma o caminho sem volta que a indústria fonográfica – tão desnorteada quanto os ouvintes – tem seguido em direção à plataforma digital. Prova disso é que no ano passado, pela primeira vez, a venda de música digital superou a de CDs no Reino Unido. O Brasil trilha essa mesma trajetória, pelo menos pelo que dizem os números. De acordo com a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), o mercado de música digital cresceu 159% em 2009, combinando vendas em internet e celular, e a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), em seu relatório anual, ressalta que o Brasil é o principal mercado da América Latina quando se trata de comércio digital.

Em relação ao faturamento total do setor, a música digital ainda engatinha, com apenas 11,9%, mas esse avanço significativo aponta que uma parcela do público está despertando para o comércio legal na web. É o caso de Léo Soares, 36 anos. Sócio de duas casas noturnas em Belo Horizonte e ex-diretor artístico da Oi FM, sempre foi viciado em música e costumava gastar por volta de R$ 300 ao mês com CDs, sem contar vinis importados. Há dois anos, fez uma conta no iTunes americano, com cartões pré-pagos (os famosos gift cards), e a partir daí seu consumo mudou.

“Praticamente parei de comprar CDs e passei a gastar 100 dólares por mês no iTunes. Compro apenas as músicas que me interessam, não tem mais aquela coisa de comprar um disco por causa de uma ou duas faixas”, afirma. Outros serviços estrangeiros – e só estrangeiros – também aparecem na lista de compras de Léo, mas não por preconceito. “Compraria em sites brasileiros numa boa, só ainda não encontrei um que me atenda. Detalhe: compro música brasileira direto no iTunes norte-americano. Não tive paciência de esperar sair no Brasil os novos discos do Otto e da Céu, por exemplo.”

Léo segue o perfil do consumidor europeu e norte-americano, mas, como as próprias estatísticas apontam, é uma minoria no universo brasileiro. Outros aficionados como ele têm rejeição pela estrutura do comércio de música digital no país e, embora os downloads façam parte de seu dia-a-dia, quando gastam dinheiro é para comprar CDs. O músico Elson Barbosa, 35 anos, disse que até experimentou o comércio digital, mas não foi muito feliz. “Há uns cinco anos apareceu uma loja de mp3 em um grande portal, e resolvi comprar para ver como é. O site não facilitava – além das faixas serem caras (e comprando o disco inteiro saía mais caro do que comprar o CD físico), a loja vendia um valor mínimo e ainda ficava com uma porcentagem desse valor. Não achei viável e nunca mais tentei”, explica.

Para ele, o formato só teria sucesso caso unisse preço, rapidez e qualidade, características que o download ilegal nem sempre oferece – a não ser, claro, o preço (no caso, a ausência de um). “Eu compraria música digital se fosse um serviço de streaming completo, atualizado, e mais fácil de usar do que ter que baixar um arquivo compactado em um site não muito confiável, com uma qualidade também não confiável, e esperar pelo download. No momento em que tivermos um sistema de streaming no qual o ‘vazamento’ do disco me linkasse direto para o botão de play, eu pagaria”, garante Elson. O streaming, aliás, é visto eventualmente como um bom meio de divulgação. “This Is Happening”, o esperado terceiro álbum do projeto norte-americano LCD Soundsystem, apareceu na internet semanas antes do lançamento. Conformada, a DFA Records resolveu colocar o disco para tocar na íntegra no site oficial, inclusive oferecendo ao internauta a possibilidade de colocar um player em seu blog.

Contato com os artistas
Os mais jovens não têm uma opinião muito diferente de Elson, e são até mais radicais. Estudante de nutrição, Gabriela Chrusciel, 17 anos, faz download pela web e não tem a menor preocupação em pagar por isso. “Acho que as gravadoras e os artistas já ganham bastante dinheiro. E o artista deveria ficar feliz mesmo com as pessoas procurando CD pirata, pois pelo menos é sinal de que ele tem fãs – não muito fiéis, mas que gostam do som dele.”

Alex Corrêa também tem 17 anos, mas possui uma relação bem mais próxima com música. Ele é um dos autores do blog “Move That Jukebox”, que rapidamente virou referência entre os sites de música independente no país. Alex diz que nunca pensou em comprar música digital, não sabe se vai comprar e segue o mesmo raciocínio de Gabriela em relação ao download ilegal. “As bandas acabam se beneficiando de qualquer forma, certo? Se um determinado disco é baixado aos montes de forma ilegal, o resultado vai ser um maior número de fãs. Com isso, mais shows são agendados, e é com shows que as bandas ganham dinheiro.”

Esse cenário não deixa muita margem de lucro para as gravadoras, e por isso mesmo alguns contratos hoje entre artistas e selos já prevêem o repasse de uma parcela da renda das turnês e, em alguns casos, como da gigante "Live Nation", de U2 e Madonna, a própria gravadora gerencia tudo, os discos e shows. No entanto, apesar do ranço com a indústria, Alex não abre mão de adquirir CDs e DVDs: para ele, o custo-benefício de ter o produto em mãos, admirar a arte da capa e encarte, é infinitamente maior do que a praticidade de música digital, e a ressurreição do vinil também passa por esses sentimentos.

“Acho que boa parte dos fãs de música precisam e sempre precisaram de um contato mais próximo com os artistas – e, de certa forma, comprar material físico é um bom começo”, defende. “O avanço da internet, ao mesmo tempo em que facilita o acesso à música, acaba gerando uma banalização da cultura. Álbuns, filmes e vídeos nunca foram tão descartáveis. E, bem ou mal, acredito que a compra de discos seja uma forma das pessoas diferenciarem (até pra si mesmas) um disco ruim de um disco bom: o bom fica ali guardado na estante, e o ruim no HD, até o espaço acabar e ele ir parar na lixeira. Nada melhor que um vinil para estabelecer essa diferença.”

Mesmo Léo, o consumidor de música digital, percebe essa relação amorosa com os produtos e admite comprar um vinil de vez em quando. “Entendo o CD ou o vinil como um objeto a ser apreciado. Com a música digital, isso perdeu o valor para muita gente, mas nem por isso deve morrer. O fato das pessoas quererem ter um objeto que significa algo para elas não morre nunca. Entendo a volta do vinil muito em cima disso também, tanto que quando acho um disco que gosto muito, procuro a versão em vinil.”

Por Marco Tomazzoni (publicado originalmente no Último Segundo)

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