Desconfie de uma música que você ouve pela primeira vez e já a tenha como preferida ou a melhor de todos os tempos. Desconfie de uma música que você ouve pela primeira vez e já considere um lixo ou a pior dos últimos trinta mil anos.
As emoções inerentes à compra de um CD novo, ao download de um álbum inédito e ao escutar de uma música estranha na rádio sempre prejudicam uma avaliação no mínimo justa. Espere, acalme-se, deixe as emoções diluírem-se, deixe as músicas gelarem. Não abra a embalagem do CD no mesmo dia, deixe de lado, ignore-a e só veja o encarte no dia seguinte. Você pode até descompactar o arquivo baixado mas apenas adicione as músicas à biblioteca, deixando-as se acomodarem no HD. Não execute nenhuma. Esnobe-as. Se o som tocou no rádio, apenas procure pegar no final da música o nome e o cantor informado pelo locutor. Não, não ligue para a emissora pedindo a música de novo. Eles sempre tocam as músicas no mesmo horário. Olhe no relógio e espere até amanhã.
Depois de não se submeter à ditadura da música nova, abra a geladeira e tire o CD inédito, o álbum baixado ou sintonize aquela rádio. Não toque imediatamente, escute alguma coisa antes, outras músicas e artistas, o programa anterior. Acostume os ouvidos com o som. Ambiente o espírito para a novidade. Mas não abandone a displicência quando, finalmente, ouvir a canção pela primeira vez. Não vá para um lugar deserto ou se tranque sozinho no quarto. Se a música for ruim você pode tentar o suicídio ou quebrar o rádio todinho. Escute a música na sala, no trânsito, durante a aula de semiótica, quando seus sobrinhos estiverem em casa. Se a música for ruim, tudo bem, ela vai se misturar a barulheira toda. Se for boa, as pessoas nem vão notar.
O conceito de bom e ruim já aparece nos primeiros dez segundos de música. Isso não significa que se deva ouvir apenas a introdução para fazer a avaliação. Ouça a música toda. Não a execute várias vezes seguida. Não toque o CD novo o dia inteiro. Não faça a música se sentir indispensável. Não, não ligue para as rádios. Se a música for ruim, é certo que muitas pessoas já pediram. Não pare sua vida para ouvir a música nova. Trabalhe, estude, escreva, leia, lave as louças, brinque com o cachorro, grite com seu irmão, namore pelo MSN. Deixe que o novo som seja a trilha das tarefas cotidianas. Como o som da chuva caindo, do cachorro latindo, do ar condicionado barulhando ou do chefe resmungando. Se você começar a cantar, mexer o pezinho ou a mãozinha inconscientemente pode ser um sinal de que a música seja interessante. Se você fechar o player ou desligar o rádio, também inconscientemente, é sinal de que a música não preste.
Os indícios podem ser, no entanto, falsos. Mas pode crer firmemente que, se a música começar a tocar toda hora na igreja, na rádio, na vizinhança e nas festas de formatura, esqueça, é só um hit pobre de verão. Se você comprou o CD inteiro, perdeu dinheiro. Agora, se você acorda domingo de manhã, abre a janela e lembra de uma música, essa música é boa. Ninguém se lembra de música ruim domingo de manhã. Só na segunda-feira.
Ouça a música nova várias vezes, em dias alternados, em várias circunstâncias. Depois de quatro meses, se ela ainda estiver em alguma pasta no computador, pode marcá-la como preferida. Se você emprestou o CD, seu amigo não devolveu e você nem se deu conta, esqueça e não esquente: não traga o lixo para casa novamente. O que é bom permanece. O que é ruim derrete rápido. A boa música serve-se bem gelada, em qualquer tempo, com os amigos ou para o deleite próprio. Escute com moderação. E se ouvir, não dirija. Faça a música querer ser ouvida. Mas nunca a subestime. (Pelo menos não à primeita vista e ouvida).
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